O corretor SR “AHN! TOIN”


corretor de imoveisEra uma vez um rapaz jovem de aproximadamente 20 anos de idade, muito simpático. Seu nome, sr. Antonio.

Antonio matriculou-se em um curso de técnico em transações imobiliárias e resolveu procurar um corretor para orientá-lo. Por sorte, um amigo em comum fez o favor de trazê-le até meu escritório imobiliário para me pedir um estágio.

Antonio era músico, nascido numa pequena cidade a 400 km da capital do Ceará. Um homem simpático, com grandes qualidades pessoais. Rapaz simples, honesto, pontual e com muita vontade de aprender. Porém, percebi que ele era um pouco desajeitado, pois quando o chamei para a entrevista, ele não percebeu que a porta de vidro da minha sala estava fechada e “tacou a cara” na porta, e eu, do outro lado, ao perceber o ocorrido, só vi os seus lábios pregados no vidro. Finalmente ele entrou na minha sala sentou-se, e eu, como se nada estivesse acontecido, perguntei:

– Como o senhor se chama mesmo?

Ele, ainda atordoado, respondeu:

– Ahn!?

Eu repeti:

– Como é seu nome?
– Quem? Eu?
– sim, você mesmo, tem mais alguém aqui na sala alem de você e eu?
– Ah! Meu nome é Ontoin!!! Disse ele, me fazendo outra pergunta:
– E o seu, meu patrão?
– Não me chame de patrão, pois, a pedido do nosso amigo em comum, aqui você vai ser estagiário e não um empregado. Depois se tornará, em breve, um corretor autônomo com registro oficial no CRECI.

Ele respondeu:
– Não se preocupe patrão, eu vou me esforçar.

Alguns dias depois, o sr. Antonio, já com sua carteira de estagiário, iniciou seu treinamento. Começou pelo telemarketing, onde foi instruído para atender ao telefone dizendo o nome do escritório, o nome dele e uma breve saudação ao cliente.

Ao atender sua primeira ligação, Antonio ao invés de responder conforme a instrução respondeu o seguinte…

– “DIGA!”
– Quem está falando? – Pergunta o cliente ligador.
– Eh! Eh! Eh! Eh! O Ontoin! – Falou o Sr. Antonio gaguejando.

Percebi que ele ficava nervoso ao atender ao telefone e, por estar nervoso, se tornava relativamente gago, nesse ínterim.

Falar ao celular com o Senhor Antonio era praticamente impossível e muito caro, pois o mesmo tinha dificuldade de entender o que se estava falando.

Depois de algum tempo. Numa segunda feira, com agenda lotada, um cliente pede para que eu envie um corretor com a finalidade de mostrar um imóvel nosso, posto a venda.

Liguei para o celular do Sr. Antonio, nesta época já corretor de imóveis, o mesmo atendeu dizendo…

– Diga!!!
– Que diga o que Antonio, fala pelo menos “alou”, fica mais clássico e menos imperativo… Antonio aqui é Fulano de Tal, o seu patão aqui do escritório, tudo bem? Você pode falar?

E o Senhor Antonio respondeu…

– Ahn?!!! Ahh!!! Sim!! Diga!!!

E, o “patrão” continuou o interlóquio via celular…

– Antonio é que tem um cliente em frente ao imóvel a venda da Avenida Desembargador Moreira. Aquele que você fez a captação ontem lembra?

Antonio interrompeu a ligação para perguntar o seguinte…

– Anh? Eihn? Quem está falando mesmo?
– Antonio, alias Ahn! Toin! Aqui é o teu patrão rapaz, aquele que te paga às comissões, caiu a ficha?

– Ah!! Sim!! Diz aiii meu patrão o que você manda?
– Antonio é sobre o apartamento que eu acabei de te falar na Desembargador Moreira… Disse o patrão.
– Que apartamento? Perguntou novamente Sr. Antônio.

O patrão já nervoso falou…

– O Senhor Anhhhhhhhh! Toin! Pelo amor de Deus, para tudo que você estiver fazendo, me escute e vá até a Avenida Desembargador Moreira, numero tal lá tem um cliente em frente ao imóvel esperando você para possivelmente comprar e você ganhar comissão, entendeu agora?

Finalmente ele entendeu em oito minutos. O custo das ligações via celular para o Sr. Antonio já estavam altos.

Antonio ganhava seu dinheiro mas gastava tudo, estava sempre de alto astral. Fora do trabalho, era uma pessoa otimista, amiga, alegre.

Passaram-se algum tempo e em um belo dia o Sr. Antonio foi solicitado para mostrar um imóvel na Praia do Futuro, a aproximadamente 10 km de distância do nosso escritório. Antonio naquele dia só tinha o dinheiro da passagem de ônibus de ida e volta. Ao chegar ao terminal de ônibus do bairro Papicu, Antonio ao invés de guardar o dinheiro para garantir sua volta após mostrar o apartamento, simplesmente comprou balas sem perceber que ali eram seus últimos centavos e para completar, tinha esquecido o seu aparelho celular no escritório.

As 18h30min horas da noite já além do expediente, todos preocupados com o paradeiro do Sr. Antonio, quando de repente ele aparece. Suado! Já com a língua fora da boca. Todos perguntaram. Antonio o que aconteceu? Por que você não nos telefonou? Você esta bem?

Ele respondeu ainda sufocado de cansaço…

Eh! Eh! Eh! Que eu fui de ônibus e só tinha o dinheiro da passagem de ida e volta, só que no terminal eu comprei balas com as moedas que me restavam e sai chupando as balas, ou seja, “chupei a passagem de volta em forma de bala”…

Todo mundo…

– Como é que é?

Neste final de expediente, ninguém se agüentou de rir e a partir de então, Antonio se tornou a alegria do escritório. Quando ele chegava logo cedo pela manhã, era uma alegria. Pois, bastava olhar para o Antonio para abrir um sorriso.

Desde então, percebendo que Antonio se tornara uma pessoa super querida no escritório, todos tentavam ajudá-lo. Por minha vez, ciente que ele era um pouquinho distraído, sugeri que ele procurasse um profissional especializado que podesse ajudá-lo, um psicólogo. E, assim ele procedeu.

No primeiro dia de consulta com a médica psicóloga ela o perguntou o seguinte…

– Antonio, o que o trouxe até aqui no meu consultório?

Ele simplesmente respondeu…
– “E eu sei lá Doutora. Meu patrão mandou procurar a senhora e eu vim, aqui estou fazendo a minha parte.”

Depois de algumas semanas conversei com Sr. Antonio pedindo para ele providenciar um veículo para seu deslocamento como todos os outros corretores. Após 2 dias, o senhor Antonio apareceu com uma camioneta pick up que pertencia ao seu pai, porém este veículo tinha os retrovisores longos com uma grande haste da porta do carro até o retrovisor.

Habilitado, porém precisando ainda de alguma prática de direção, Antonio ao dirigir seu veículo tentou fazer o retorno em um anel viário chamada Praça Portugal. Ao tentar retornar, percebi que Antonio já estava rodando a praça pela terceira vez. Perguntei o que estava acontecendo e ele respondeu…

– Onde é que eu dobro? Onde é que eu drobu? Onde é que eu dobro?

Eu dentro do carro disse…

– Antonio tenha calma. Ta vendo esse prédio azul? O shopping Adeota? Fixa nesse ponto, agora vai ! Dobra.

Finalmente ele conseguiu e eu fiquei foi tonto de tanto rodar a praça. Porém a “via cruzes” não tinha acabado ainda. Dois quarteirões depois, Antonio estaciona em local proibido e longe do fio de pedra, quando passa um ônibus e arranca o retrovisor do lado do motorista do seu carro. Ele vendo aquilo se revoltou, pegou o retrovisor e correu atrás do ônibus para ressarcir seus danos. Conseguiu interceptar o ônibus numa pista de três vias. Estacionou o carro no meio e em seguida veio um caminhão e arrancou o outro retrovisor que ainda restava do outro lado do carro. Ele vendo aquilo ficou olhando. Pegou todas as partes do carro no chão e disse…

– “Que se dane todo mundo, eu vou é pra casa.”

Foi aí então contratei um motoboy para transportar o Sr. Antonio. Assim ele não precisaria mais dirigir. Verifiquei que os clientes gostavam muito do Sr. Antonio e resolvi investir.

Antonio era muito criativo, perseverante, prestativo, alegre e otimista. Quando ele ia acompanhar um cliente eu percebia que nossos clientes o tratavam muito bem e vice versa. Antonio, apesar de tudo, era fantástico.

Apresentei ao corretor Antonio, o seu novo colega motoboy. E no primeiro dia que foram mostrar um grande imóvel. Ele percebeu que o imóvel apresentava um odor um pouco desagradável por estar fechado a muito tempo e comprou um tubo grande de bom ar para desinfetar o imóvel antes que o cliente chegasse. Depois de terminado a vistoria do imóvel pelo cliente, o Senhor Antonio guardou na sua pasta preta o tubo de bom ar e, voltando para o escritório, já na garupa da moto, perceberam que o pneu tinha sido furado. Tanto o motoboy quanto o Senhor Antonio estavam na rua empurrando a moto quando apareceu o COE – Comando de Operações Especiais da Polícia. Todos armados de escopeta e metralhadora. Interceptaram os dois empurrando a moto e disseram os policiais…

– Encosta… Encosta… Encosta na parede todos os dois larguem a moto e a pasta… AGOOOOORA!!!!!

O coitado o motoboy e o Sr. Antonio encostados-se a parece com mãos para o alto foram revistados pela policia e um dos oficiais botou a escopeta devagar bem perto da orelha do corretor Antonio. Deu ordens para o Antonio abrir a sua pasta devagar para saber o que tinha dentro e a lata de bom ar caiu no chão. O policial de imediato gritando no ouvido do pobre corretor disse…

– O que é isso?.. O que é isso?.. O que é isso?

Antonio muito nervoso respondeu…

– Éh… Éh… Éh… Éh… Éh… Bom… Bom… Bom… Bom ar num ta vendo não?

Depois da revista, os policiais viram que se tratava de dois cidadãos, pediram desculpas e explicaram que havia tido um assalto a poucos quarteirões dali e a moto tinha as mesmas características.

Ao retornarem ao nosso escritório, Antonio e o motoboy, todos traumatizados. Antonio tirou o capacete e chegou com os cabelos todos arrepiados e cabisbaixos. Relatou o ocorrido e disse que o motoboy era “gente fina” mas a moto não prestava.

Contratei outro motoboy para acompanhar o Sr. Antonio. Agora ele andava de moto nova. Tava dando tudo certo e Antonio estava feliz da vida. Até que um belo dia…

Pedi ao motoboy conhecido simplesmente como Zé que fosse com o Sr Antonio vistoriar uma casa em um conjunto habitacional da cidade de Fortaleza. Zé, o motoboy gostava de velocidade e se achava um piloto. Até que ao retornar da vistoria do imóvel, Antonio na garupa da moto alertou Zé sobre uma carroça puxada por um jumento com uma frase na traseira dizendo. “Mantenha distância”.

A carroça puxada pelo jumento estava também em alta velocidade e lotada de tijolos. Logo a frente da carroça tinha um semáforo que passou do sinal amarelo para o vermelho e de repente a carroça estava tentando frear de todas as formas. O cocheiro puxava as rédeas do jumento com todas as suas forças. Foi então que Zé achando que sua moto era mais veloz do que a carroça, a ultrapassou e imediatamente se viu forçado a parar na frente do coitado do jumento que puxava a carroça.

Zé ultrapassou a carroça e logo na sua frente por causa do sinal teve que parar imediatamente. Fez isto na maior naturalidade, mas não se deu conta de que logo atrás da sua moto, onde Antonio estava na garupa, vinha o jumento tentando parar também naquele sinal.
Foi quando o senhor Antonio olhou para trás e só conseguiu enxergar um jumento rosnando quase no seu pescoço. O senhor Antonio se desesperou dizendo…

– Zée!!! Va… va.. va… Corre… Vai corre “machu” que.. que.. tem.. tem.. tem… um jumento atrás de mim.

Não deu nem tempo. Quando o motoboy Zé entendeu a situação, o jumento tinha parado nada menos que cinco centímetros de distância atrás do senhor Antonio.

Este se descontrolou. Pulou desesperadamente da garupa da moto. Tirou o capacete e disse olhando para o pobre jumento.

– “Seu jumento filho de uma éeegua!!! Assim não dá.

Ao retornar para o escritório, o senhor Antonio veio diretamente a minha sala para dizer o seguinte.

– “Olha patrão. Gosto muito de trabalhar aqui. Mas eu acho que não tenho sorte como corretor. Já andei dez quilômetros a pé, já fui para uma psicóloga, já botaram uma escopeta no meu ouvido, mas um jumento no meu cangote daí é azar demais patrão. Eu vou voltar a ser músico.”

Antonio se despediu e foi embora…

Antonio desistiu de ser corretor e voltou a ser músico. Atualmente ele toca órgão em missa de corpo presente tocando a música “Segura na mão de Deus e vai…

Moral da história:

Na profissão de corretor, você poderá enfrentar muitas dificuldades, mas não deixe de vender imóveis por causa dos jumentos, pois estes estão por toda parte.


Autor:
Prof. Fernando de Queiroz

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