" Pacato Cidadão "



Nós já falamos aqui, daquelas mães, de tempos atrás, que criavam 7, 10 e até mais filhos e, numa briga entre irmãos, não pensavam duas vezes: sobrava pra todo mundo. A mãe avisava: “Se vocês não pararem com isso, todo mundo vai apanhar.” Dito e feito. Era a atitude mais fácil diante da prole abundante. Apurar os fatos, quem começou o quê, significava perda de um tempo precioso para os afazeres domésticos.

O tempo passou, a família encolheu e, agora, os pais ‘tentam’ educar filhos cada vez mais donos do seu nariz. Agora, numa confusão entre as crianças, primeiro, tentar apurar direitinho tudo o que aconteceu. Em seguida, em tempos de SuperNanny, vamos ao cantinho para pensar e, enfim, a terceira e última parte: o que você aprendeu com isso? A intenção é clara: a reflexão sobre o erro, deve impedir que ele se repita.

Mas, de família em família passamos do bando para a tribo, da tribo para a vila, da vila para a cidade, da cidade para a metrópole. Na contramão da família que encurtou, a metrópole cresceu. E se pensarmos a metrópole como uma grande família, com cada vez mais filhos, nos vemos diante de uma prole tão extensa que, quando a convivência se complica e as brigas aparecem, sobra pra todo mundo. Não há autoridade, prefeito, vereador ou policial que consiga, sozinho, apurar direitinho os fatos, refletir, aprender e buscar uma solução boa para todos.
E, o pior, os afazeres políticos, a exemplo, dos afazeres domésticos daquela mãe cheia de filhos, não podem esperar – são mais importantes que uma boa educação. O resultado não poderia ser outro; cria-se cada vez mais cidadãos para o mundo, mas educa-se cada vez menos.

Parece exagero? Então vamos pensar sobre algumas situações que trazem conflito para nossa cidade cada vez mais populosa.

Há muito, as confusões em dia de jogos no Mineirão preocupavam as autoridades. O encontro de torcedores, ambulantes, flanelinhas e das polêmicas torcidas organizadas quase nunca acabava bem o que dava muito trabalho para a polícia. O que fazer? Mais policiamento? Fiscalização eficiente dentro e nos arredores do Estádio? Postura ética e organizada da torcida? Oferta de um espetáculo de qualidade? Que nada: a solução encontrada foi proibir a comercialização de bebidas alcoólicas no Mineirão e seu entorno em dia de jogos.

Que tal? Domingão, futebol, um sol rachando na cabeça e nem uma cervejinha pra relaxar! Por causa de meia dúzia, ou algumas dúzias de pinguços e desordeiros, sobrou pra todo mundo. Nossos dirigentes ainda não encontraram soluções que permitam ao cidadão de bem ir ao estádio com a família, tomar uma latinha de cerveja, relaxar, torcer, se divertir. A solução lembra a mãe de tempos idos gritando com a filharada: ‘ninguém mais bebe aqui’!

Outra situação: Sacar dinheiro no banco tem sido motivo de preocupação para muita gente. É cada vez mais comum o roubo conhecido como ‘saidinha de banco’. BH tem três assaltos desse tipo por dia. No mínimo, seria um caso para a polícia resolver em parceria com toda a rede bancária que deveria se preocupar com a segurança de sua clientela.
Que nada! Mais uma vez, a “solução” é passar a régua e exigir que todo e qualquer cliente procure outra forma de lidar com seu dinheiro.
O Banco 24 horas, no Brasil, já funciona apenas 12. Só falta agora proibir o saque em dinheiro nos caixas automáticos. E assim, de vítima, o cidadão passa a responsável por essa modalidade de crime.

Quer mais? Motoristas, motociclistas e passageiros de Belo Horizonte, a primeira capital planejada da América do Sul, sofrem com os congestionamentos diários. A frota municipal cresceu num ritmo tão acelerado que, hoje, há um carro, moto, ônibus ou caminhão para cada 1,7 habitante.

Daí surgem os problemas: a baixa velocidade média do fluxo nos horários de pico. Viajar no casco de uma tartaruga seria mais rápido. A velocidade média na Avenida do Contorno é de 30 km/h e na Afonso Pena, de 32.
O estímulo à produção e as facilidades de financiamento multiplicaram as vendas mas junto não veio o necessário planejamento urbano para receber mais carros nas ruas.

Mais uma vez sobra para o cidadão. É só pedir para o povo deixar o carro na garagem e… bem vindo ao sistema de transporte urbano. Sistema de transporte urbano…? Em que planeta estamos, cara pálida?
Então tá: o governo só queria que mais gente comprasse carro, daí a sair com ele por aí são outros 500. É assim?

E o golpe de misericórdia vem com a preocupação com o meio ambiente. Precisamos de sacolas ecológicas, que não agridam o meio ambiente. Até aí, tudo bem. A preocupação começou com as sacolinhas de supermercado, embora toda a indústria continue embalando seus produtos no velho e ecologicamente incorreto plástico. Vá lá, tem que se começar de algum lugar. Para cumprir a lei, que começa pra valer na próxima segunda, é só os donos de supermercados trocarem as sacolas que eles fornecem para acondicionar as mercadorias, certo? Não errado, erradíssimo. Sobrou de novo para o cidadão. O que deveria ser obrigação do comércio, agora que é ecologicamente correto, passou a ser dever do cidadão, ao preço módico R$ 0,19 por unidade, para a sacola compostável.

As redes de supermercados já estão apostando na variedade de embalagens retornáveis para conquistar o cliente. Ao lado dos caixas elas podem ser encontradas por preços que variam de R$ 1,98 a R$ 9,90. Quanta preocupação com a clientela, não é mesmo?
E de nada adiantou – pelo menos até agora, o Procon alertar para o fato de que cobrança de saco biodegradável ser inconstitucional.
E assim, de medida em medida, sobra pra todo mundo…
Até quando, pacato cidadão?

Texto da Selma Suely

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