Vende-se uma rua. Tratar com a prefeitura de


Rua Musas, em BH: espaço para hotel de luxo (crédito: Google Maps)
Rua Musas, em BH: espaço para hotel de luxo (crédito: Google Maps)
Os moradores da rua Musas, no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, foram pegos de surpresa nesta segunda-feira (23/5), ao descobrirem que a prefeitura da cidade está vendendo parte de sua rua para o grupo Tenco construir no local um hotel de luxo.

A transação não é a primeira que o governo municipal cria como incentivo a investimentos para expansão no número de leitos hoteleiros da cidade. E como em outros casos, a negociação enfrenta a reação e o protesto da população mineira.

Embora localizada em um dos pontos mais nobres da capital mineira, a rua Musas nunca foi completamente pavimentada e só se pode acessá-la por outra via, a avenida Raja Gabaglia. Segundo Pedro Brandão, morador no local, a rua sempre foi vista com descaso pela administração, a ponto de em certo período ter virado um depósito de entulho de construções próximas. Os lotes vagos onde será construído o hotel também já serviram por algum tempo de estacionamento para boates próximas “Foi uma época infernal”, lembra o morador.

Projeto ambicioso
“Mas agora todo mundo resolveu lembrar da minha rua”, ironizou Pedro. O projeto do hotel cinco estrelas que ocupará a via pública é ambicioso, visto como um dos principais para a cidade consiguir alcançar um patamar respeitável de leitos de alto nível para a Copa, explicam as autoridades.

Do lado da população, o tamanho do empreendimento e o potencial de uso são motivos a mais de preocupação para quem vive na região. São questionados os problemas de trânsito que o empreendimento irá gerar. Brandão diz que há incoerência nos preparativos para 2014: “Enquanto temos de lidar com a perda de uma rua, o trecho do anel rodoviário, que seria o principal acesso para o Mineirão, nem está incluído nas reformas para a Copa”.

Também a presidente da associação de moradores do bairro Santa Lúcia, Luzimar Lisboa, aponta problemas de mobilidade: “Como o trânsito dará conta de algo assim? E quando um caminhão for descarregar uma mercadoria na rua?”. A Musas é uma rua estreita e a entrada do hotem será por ela, explica Luzimar, observando: “O trânsito na região já é complicado, e com o hotel o fluxo de automóveis deve aumentar ainda mais. Não sabemos qual será o impacto ambiental no bairro”, declarou.

Mas, contrariando as expectativas dos moradores, a atuação da associação de moradores do bairro Santa Lúcia acabou ajudando a aprovação do Projeto de Lei (PL) 1.625/2011, que prevê a alienação de aproximadamente 1,7 mil m² da rua Musas. O projeto foi aprovado em segundo turno na Câmara de Vereadores de BH, e um dos votos a favor do projeto foi o da vereadora Elaine Matozinhos, vice-presidente da associação.

A presidente da associação analisou a postura da vice: “Ela deu justificativas estranhas para o voto”, disse Luzimar Lisboa. “Falou que se votasse contra, seria apenas voto vencido e estaria contra seu partido”. Mas a desculpa não convenceu os moradores, que foram atrás do apoio do deputado estadual Fred Costa.

A causa já tem até site na internet (www.salveamusas.com.br), e um abaixo-assinado virtual contra a venda da rua está disponível.

Duas denúncias foram levadas ao Ministério Público e uma está sendo encaminhada ao Tribunal de Contas. Mas a sensação dos moradores, à essa altura do processo, é de que será bem difícil barrar a construção do hotel. “Sabemos que é complicado, mas precisamos agir. Nem que seja para deixar claro ao governo que o povo não é bobo”, disse Luzimar Lisboa. Ela explica que a indignação maior dos moradores é que eles foram os últimos a saber. Pedro Brandão confirma: “Não tínhamos ideia de que um hotel como esse seria construído em minha rua. Ninguém veio conversar conosco para explicar o que quer que fosse”, reclamou Pedro.

Expansão hoteleira em risco
A escassez de hotéis de alto nível é o ponto fraco de Belo Horizonte para a Copa de 2014. E a venda da rua Musas não é o único exemplo de ação do governo que está sendo questionada pelos habitantes da capital mineira. O aluguel de um prédio público na área central para a rede de hotéis Fasano (leia mais) gerou suspeitas. O processo corre o risco de ser anulado.

Também um projeto de reforma para o Mercado Distrital do bairro Cruzeiro, que pretendia transformar o espaço em centro comercial incluindo um hotel de luxo, no padrão necessário à Copa, foi suspenso pela prefeitura após pressão de moradores da região. “Sabemos que este projeto resolveria dois grandes problemas da região: a crescente redução das atividades econômicas do mercado distrital e o problema do tráfego no seu entorno. Mas entendemos que há alternativas e por isso decidimos por interromper o projeto”, explicou Marcello Faulhaber, secretário municipal de Desenvolvimento.

Resta saber se a venda de uma rua, ou seja, de parte do patrimônio público, merecerá alguma reflexão e a mesma ponderação do gestor público.

Por: Marcelo Faria – Belo Horizonte

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