BH: 114 anos de amor e abandono


O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fecharia os olhos e, certamente, mudaria o rumo dos seus passos. Talvez até reescrevesse: “Não voltarei para ver o que não merece ser visto” – como fez, em 1976, no poema “Triste horizonte”, sobre a Serra do Curral. Tudo isso para não passar pelo Viaduto Santa Tereza, onde, quando jovem, gostava de desafiar a lei da gravidade e andar, sem medo, sobre os arcos. Hoje, o escritor se assustaria com o estado da estrutura inaugurada em 1929: totalmente pichada, com luminárias quebradas, perda de revestimento e clamando por restauração.

Outro Drummond, o jornalista Roberto (1939-2002), inventor do verbo “savassear”, sobre a Praça Diogo de Vasconcelos, ficaria com o coração partido ao avistar a antiga Pastelaria Ouropretana, depois confeitaria, na esquina das ruas Pernambuco e Inconfidentes. O estado é de abandono e a sujeira domina o imóvel, datado dos tempos da construção da capital, que amanhã completa 114 anos de inauguração. Olhando o patrimônio cultural tombado pelo município, que mistura estilos e atrai olhares às vezes de encanto, às vezes de espanto, surge a questão: Belo Horizonte trata bem seu passado? São 700 bens tombados na cidade, a maioria na Região Centro-Sul. Outros mil estão sendo avaliados pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal, mas a proteção oficial, por si só, não é garantia de conservação.

A presidente do Instituto dos Arquitetos dos Brasil (IAB/Seção Minas Gerais), arquiteta e urbanista Cláudia Pires, observa que há muitos avanços, principalmente com a legislação municipal, existente desde 1983, quando a capital perdeu um dos seus ícones, o Cine Metrópole, ex-Teatro Municipal, edificado em 1906. Ela explica que a cidade tem uma característica nociva, que faz muita gente – empreendedores, construtores e outros – “entender o progresso como renovação e não como manutenção do conjunto”. Para a dirigente do IAB/MG, “ainda falta conscientização e a população também precisa compreender a história da cidade, o valor do seu conjunto arquitetônico, a importância dos bens culturais”.

Os prédios modernistas, construídos entre os anos de 1940 e 1960, à exceção do conjunto da Pampulha, de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer, que completa 104 anos na quinta-feira, não recebem o devido cuidado, na opinião da arquiteta e urbanista. Entre os bens perdidos recentemente, ela cita o prédio da Minas Diesel, no Bairro São Cristóvão, na Região Nordeste. Construído na década de 1950, com projeto do arquiteto Oswaldo Santa Cruz Nery, o imóvel não tombado pelo conselho deliberativo sumiu do mapa para dar espaço às obras de duplicação da Avenida Antônio Carlos.

Uma das melhores formas de preservar a história está na educação patrimonial, orienta Cláudia, lembrando que ela deve ser difundida nas escolas, para sensibilizar os jovens. Com essa prática e respeito à legislação, acredita, será possível conservar o acervo e impedir demolições, como as que ocorreram nos bairros Funcionários, Lourdes e Barro Preto.

Por:Gustavo WerneckJefferson da Fonseca Coutinho – Estado de Minas

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