A carta do (agora ex) CEO do Groupon: por que é tão difícil assumir os erros?


Ao brincar com a própria demissão, Andrew Mason demonstrou mais do que bom-humor: revelou que reconhecer os erros é a melhor maneira de ser bem-sucedido

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A cultura corporativa predominante no Brasil determina que o erro, falha, engano ou apenas eventuais maus resultados devem ser expulsos da empresa e enterrados com sal grosso. Profissionais que erram não são adequados para o trabalho, não se encaixam nos objetivos, são fracassados, trabalham pouco ou são incompetentes (ou tudo isso junto)… Quem erra ou se envolve em algum erro relacionado à sua atividade profissional pode não ter uma segunda chance. A própria pessoa se convence de que é um erro em si. Daí para uma crise de depressão e insatisfação com a própria carreira basta um passo.

Na edição nº 18 da Revista Administradores, me prontifiquei a escrever sobre o fracasso. Uma matéria mais curta do que eu gostaria, mas na qual procurei mostrar que o erro pode ser o início de uma grande experiência – não só no nível pessoal, mas também para as empresas (que nada mais são do que pessoas trabalhando por um objetivo comum). Entre os exemplos, citei o case da Starbucks, que conseguiu se recuperar recentemente de uma série de resultados desastrosos.

Se eu fosse escrever a mesma reportagem hoje, não deixaria de fora a carta de Andrew Mason. Fundador do serviço de compras coletivas Groupon, ele foi demitido esta semana pelo conselho da companhia do cargo de Chief Executive Officer (CEO) da mesma empresa. Ao invés de dar desculpas ou lamentar a postura dos seus pares, ele não só reconheceu onde errou, como também motivou os funcionários (para os quais a carta foi dirigida) a continuarem construindo a história do Groupon; e ainda ironizou a postura de quem se esquiva de assumir a responsabilidade pelo fracasso.

“Após quatro anos e meio intensos e maravilhosos como CEO do Groupon, eu decidi passar mais tempo com minha família. Estou brincando – fui demitido hoje”, declarou. Perdi a conta de quantos empresários e políticos decidiram “se dedicar à família” depois de sofrer algum tipo de pressão conjuntural. Me atrevo a fazer uma generalização empírica: todas as pessoas tendem a fazer de tudo para não serem apontadas como “culpadas” pelo erro, inclusive mentir, tergiversar, enrolar ou apontar outros culpados – inclusive colegas de trabalho. Muitas vezes a chefia carrasca não ajuda, mas é rápida em abrir o alçapão da forca. E para mudar esse comportamento, agir ao contrário do que a própria intuição diz, é preciso muita maturidade.

No sentido de mudar essa cultura, Mason deu o melhor dos exemplos como líder (desse cargo ele não pode ser demitido): “vocês estão fazendo coisas fantásticas no Groupon, e vocês merecem que o mundo lá fora lhes deem uma segunda chance. Um novo CEO irá garantir a vocês essa segunda chance. O conselho está alinhado por trás da estratégia que nós compartilhamos durante os últimos meses, e eu nunca vi vocês trabalhando juntos tão eficientemente como uma companhia global [como agora] – é hora de dar ao Groupon uma válvula de escape ao barulho da opinião pública”, escreveu.

Não há dúvidas de que o Groupon revolucionou o varejo e a prática de descontos, influenciando vários outros serviços a fazerem o mesmo e inspirando diferentes modelos de negócios. Mas, nos últimos anos, a “febre das compras coletivas” começou a arrefecer; os descontos oferecidos estão menores do que antes e os varejistas e consumidores não estão mais tão encantados com as ofertas como antes. Segundo a Forbes, Mason foi demitido “após uma longa série e passos em falso e chances perdidas de dar um novo direcionamento à companhia”.

O tom de apoio ao trabalho dos colaboradores foi fundamental para o ex-CEO: o Groupon vinha executando demissões sistemáticas em massa. No último semestre de 2012, 648 funcionários foram mandados embora, a companhia viu o seu fluxo de caixa ser reduzido de US$ 64 milhões para US$ 42 milhões e o preço das ações chegou a valer US$ 3,85 – na época da IPO valiam US$ 20. Hoje está em torno de US$ 4,83, com alta de 12% após a demissão do CEO. Uma dose de motivação para os trabalhadores, junto com a postura do líder de assumir todas as consequências pelos erros e parar de reverter os maus resultados em demissões, certamente fará a diferença para o Groupon em um futuro próximo.

“Se há um pedaço de sabedoria que este simples peregrino gostaria de transmitir para vocês é: tenham coragem de começar com o cliente. Meus maiores arrependimentos são os momentos que deixei que os dados substituíssem minha intuição sobre o que seria o melhor para os nossos clientes. Essa mudança na liderança dá a vocês um pouco de fôlego para quebrar velhos hábitos e entregar felicidade sustentável aos consumidores – não percam essa oportunidade”, concluiu.

Andrew Mason ganhou meu respeito. Gostaria de ver mais líderes abandonando o patronalismo e agindo dessa maneira, e mais colaboradores assumindo as responsabilidades em vez de apontar o dedo para os colegas. Gostaria, sobretudo, de agir desse mesmo jeito se alguma bomba eventualmente estourar nas minhas mãos.

FONTE: http://www.administradores.com.br

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