Cuidado com os adivinhos: eles preveem a chuva, mas não constróem abrigos


Veja algumas lições do Inferno de Dante para a Administração

BoladeCristalO inferno de Dante possuía um lugar especial para as pessoas que ganhavam a vida se propondo a adivinhar o futuro: como uma lição de que ninguém é capaz de ver o futuro, adivinhos, xamãs e afins tinham a cabeça virada para trás e eram forçados a passar a eternidade olhando tudo de costas. Por tentarem (ou prometerem) olhar para o futuro, eram castigados com a lembrança de que ao homem cabe somente olhar do passado ao presente. Convença os outros de que você é capaz de ver o futuro e um cantinho especial do inferno estaria garantido para você.

Gosto de lembrar do inferno de Dante toda vez que vejo um economista prevendo o futuro, ou um analista de qualquer coisa dizendo para onde vai a tecnologia, o mercado, o mundo. Talvez por isso que toda vez que um repórter me pergunta quais são minhas previsões para o mercado ou algo assim, me nego a responder. É um hábito de deixar qualquer assessor de imprensa nervoso. Seja para quem for, não me peça previsões.

Ninguém pode prever o futuro, e quem diz que pode ou está enganado ou está mentindo.

As razões para nossa incapacidade de prever o futuro são muitas. A mais importante, a meu ver, é que ao mesmo tempo que gostamos de nos achar seres racionais e inteligentes, não percebemos como o que entendemos por “passado” e até por “presente” são histórias interpretadas por nossos cérebros de forma bastante seletiva. Pense naquele menino (ou menina) do colégio que você nunca chamou para sair por achar que ele (ou ela) não gostava de você, quando na verdade a pessoa era tímida, ou nem sabia que você sentia o mesmo por ela.

Interpretações errôneas não se resumem somente à vida pessoal. Dá para encher um livro com previsões toscas sobre rumos do mercado. Há não muito tempo, por exemplo, o pessoal da indústria de refrigerantes achava loucura tentar vender um novo produto com gosto de remédio, com uma lata pequena e uma quantidade maior de cafeína, que ainda por cima custava bem mais que os bons e velhos refrigerantes. Anos depois, todo mundo tenta copiar o Red Bull.

A nossa incapacidade de prever o futuro não significa que não podemos fazer nada a respeito. Maquiavel escreveu que a fortuna é como um rio, daqueles que transbordam inundando tudo que aparece pelo caminho. Qualquer pessoa que tente prever o que vai acontecer, ou se oponha às forças da água, estará com problemas. O autor sugere, então, que tal qual um bom engenheiro, o segredo está em construir as estruturas para lidar com a água antes dela passar pelo local. Com barreiras, valas e moinhos, é possível direcionar e usar a força da água. Mas só se fizermos o trabalho pesado antes dela passar.

Maquiavel já sabia algo que escapa a muitas pessoas: há uma grande diferença entre o processo que usamos e o resultado que temos. O resultado, o estado final do futuro, não é controlável. O processo é controlável.

Em outras palavras, todo e qualquer esforço de controlar o futuro vai dar errado. Toda vez que você vir um político estabelecendo normas de inovação, selecionando setores ou empresas “campeãs” para receberem investimentos, ou dizendo que o mundo está indo em alguma direção específica, se prepare para ver o dinheiro dos seus impostos ser desperdiçado. O mesmo vale para o mundo empresarial: quando o bem estar da empresa que você trabalha depende de acertar uma previsão, hora de escrever currículos. Tantas coisas podem acontecer no futuro, que ninguém é capaz de adivinhá-lo. Apostar suas fichas ali pode até funcionar no curto prazo. No longo, a fortuna cobra seu preço e vai te atropelar como uma enchente.O que é bem diferente de dizer que não podemos fazer nada a respeito.

O que podemos fazer é olhar para o processo. Em vez de se irritar quando uma novidade ou estratégia dá errado, um bom gestor espalha suas apostas, com a consciência de que perderá dinheiro em algumas iniciativas para ganhar em outras. Uma boa política pública de inovação seria aquela que se preocupasse em treinar mão de obra qualificada e saísse do caminho, permitindo que mais empresas fossem fundadas e fechadas de forma fácil e barata, sem tentar adivinhar quais setores ou empresas serão lucrativos no futuro. Uma boa estratégia de investimentos não depende de acertar um ou dois pontos percentuais em uma variável qualquer, mas procura sobreviver aos ciclos de altas e baixas do mercado.

E é essa a lição do inferno de Dante para a Administração, seja falando de empreendedorismo, inovação ou até políticas públicas: adivinhar o futuro não funciona. Pessoas que ganham a vida adivinhando coisas logo serão lembradas de sua incapacidade e terão os pescoços torcidos. O foco de um bom profissional não está em adivinhar o futuro, nem selecionar o melhor adivinho. Está nos processos que desenvolve, no modo como se comporta e trabalha para chegar ao melhor futuro possível.

Por Fábio Zugman – www.administradores.com.br

 

 

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