Construir fazendas ou sítios requer um projeto arquitetônico específico


Construções em sítios e fazendas não são tão simples quanto parecem. Um projeto, feito a partir dos objetivos econômicos da propriedade, é importante para definir até o local das benfeitorias

 

 (Beto Novaes/EM/D.A Press)


Montar uma fazenda ou sítio hoje é bem mais complexo do que era antigamente. Não basta escolher o lugar da casa, subir as paredes e ir fazendo as outras benfeitorias sem nenhum planejamento. O importante, primeiro, é definir a atividade a ser explorada. Depois, o projeto deve ser desenvolvido de acordo com a topografia do local. A casa tende a ser convidativa. Por isso, a cozinha, com seu fogão a lenha (no detalhe), ocupa boa parte do espaço. E o curral tem que oferecer conforto e higiene aos animais. Empresas especializadas no desenvolvimento de planos diretores para fazendas chegam a produzir de 70 a 80 plantas de construção para chegar ao melhor resultado.

“Moro num lugar/Numa casinha inocente do sertão/De fogo baixo aceso no fogão, fogão a lenha”. A letra da música Vida boa, dos mineiros Victor e Leo, pode até servir de inspiração para os interessados em construir uma casa no campo. Mas o importante é focar no projeto de toda a propriedade. A casa, o curral e o galpão do sítio ou fazenda devem ser elaborados tendo em vista principalmente a atividade agropecuária a ser desenvolvida. Se a sua criação é de cavalo, por exemplo, os especialistas do agronegócio afirmam que a casa pode ficar próxima da atividade. Se for de suínos ou aves, é recomendado que a residência seja construída em local mais distante.

“É preciso realmente fazer a avaliação da propriedade como um todo. Onde tem as nascentes de água, vias de acesso e rede elétrica. É necessário que seja verificada a função da fazenda ou sítio, se é de lazer ou produção.”, afirma Augusto Salles, engenheiro e arquiteto, que trabalha há 22 anos na área rural. A definição das construções, diz, também vai variar de acordo com a topografia do local.

Feita essa avaliação detalhada, a infraestrutura pode começar a ser montada. “É importante que tenha varanda e cozinha grandes”, afirma o economista e produtor cultural Paulo Rogério Ayres Lage, que escreveu o livro Casa rural mineira – Um guia de construção. Na publicação, ele retrata projetos e estruturas de várias casas mineiras, entre elas a sua, em Ouro Preto. “O livro é uma maneira de não deixar os conhecimentos acabarem. A intenção é tentar preservar uma maneira antiga de viver”, afirma Lage. O interesse dos produtores rurais pelo projeto foi tamanho que a primeira edição, de 3 mil unidades, já esgotou.

Tudo começou com o fogão a lenha. Os amigos Paulo Lage e Djalma Pinto de Almeida (este, o mestre de obra, já falecido) decidiram escrever o livro para ensinar os interessados a construir um fogão a lenha. O projeto acabou se transformando em um texto que descreve minuciosamente a estrutura da casa onde reina esse fogão. Há detalhamento de seu alicerce, telhado, portas e janelas, forro, reboco, piso, pintura, cozinha, jardins, quintais, entre outros aspectos.

 (Beto Novaes/EM/D.A Press)

Com a planta baixa da casa em mãos, deve ser definida a marcação. Os autores do livro revelam que o método mais fácil e acessível em construções rurais consiste em cercar todo o local onde a casa vai ser edificada, com um tabuado de madeira na altura de 50 centímetros, afastado um metro de onde as paredes externas vão ser construídas, em esquadro nivelado, para que toda a construção possa ser demarcada.

As casas de roça costumam ter o pé-direito baixo – em torno de 2,5 metros –, o que pode dar certo e resultar em charme e aconchego, principalmente quando não se coloca forro nas cozinhas. “Mas o melhor é a casa bem arejada e ventilada, com o pé-direito mais alto. As fazendas têm muita chuva e vento, com muita umidade”, observa Rivaldo Nunes da Costa, médico-veterinário e produtor rural.

Paulo Lage queria ensinar a construir um fogão à lenha e acabou desenvolvendo toda a residência com o amigo Djalma (Beto Novaes/EM/D.A Press)
Paulo Lage queria ensinar a construir um fogão à lenha e acabou desenvolvendo toda a residência com o amigo Djalma

A cozinha, na visão dos autores do Casa rural mineira, é o ponto de partida e o espaço nobre da residência. Nela reina o fogão a lenha e se recebem os camaradas para beber café. Nos bancos e banquinhas se assentam as visitas consideradas de casa. “Ela vai funcionar como a sala da casa rural mineira. Deve ter mesa grande”, ressalta Paulo Lage. O fogão, diz, funciona como a lareira da casa. Pequena despensa, que pode ser também bom armário, é necessária.

E já que o fogão é a lareira, a cozinha deve ser bem ventilada, para espantar o calor nos dias de temperatura mais elevada. O fogão a lenha é feito de alvenaria e não deve espalhar fumaça pela casa, aconselha Lages. É importante que o piso da fornalha – leito do fogo – tenha aclive de 3%, detalhe fundamental para ajudar na retirada da fumaça. “E é bom que tenha uma tira de bambu em cima do fogão para secar alguns produtos, como linguiça e tocinho”, ressalta.

No livro os autores destacam também a forma como a água vai ser recebida e vazada. Segundo eles, somente a água dos vasos sanitários deverá ser canalizada para a fossa, que tem que ficar bem distante dos córregos, nascentes ou poços artesianos. As demais, dos banheiros, da cozinha, do tanque, deverão ser devolvidas à terra, em terreno de grande permeabilidade, que vai recebê-las e absorvê-las. A água que sai das pias da cozinha deverá ir primeiro para uma caixa de gordura, para facilitar o desentupimento, desinfecção e limpeza dos canos. A instalação elétrica da casa também exige profissional habilitado, principalmente pelos riscos que sua instalação incorreta pode acarretar.

Exemplo de projeto para uma casa de fazenda ou sítio valoriza a área da cozinha, onde os amigos são recebidos (Reprodução do Livro
Exemplo de projeto para uma casa de fazenda ou sítio valoriza a área da cozinha, onde os amigos são recebidos

O melhor lugar para os animais 
A estrutura do curral tem de ser feita de acordo com a necessidade para ser possível agregar valor à atividade

Para a pecuária de corte é bom lembrar da área de ordenha das fêmeas (José Alberto Alves de Brito Pinheiro/Divulgação)
Para a pecuária de corte é bom lembrar da área de ordenha das fêmeas

O curral é outro item de peso nas propriedades. Por isso, deve ganhar construção específica, de acordo com a atividade escolhida – corte, leite (como negócios) ou apenas para complementar a renda da fazenda. “A primeira coisa que a pessoa deve saber é o que vai fazer na propriedade. É muito comum ter o terreno e não saber o que vai ser desenvolvido nele”, afirma o argentino Ricardo Adrián Muradas, engenheiro-agrônomo e presidente da RAM Assessoria Econômica. Com 38 anos no mercado, Muradas é um dos principais nomes no país no desenvolvimento de planos diretores para fazendas de gado de elite, haras, condomínios e resorts.

A RAM oferece consultoria integral, que abrange desde a escolha da terra até o empreendimento pronto, com o paisagismo. A empresa tem atuação nacional e internacional, e conta com 624 projetos executados no Brasil e 52 no exterior. “Antes a propriedade rural era tida como hobbie. Hoje é atividade empresarial. As fazendas precisam passar por critérios técnicos para que sejam bem-sucedidas”, destaca Muradas.

Ele cita, por exemplo, as linhas hidráulicas, elétrica, de telefonia e a circulação como pontos fundamentais a serem analisados na propriedade. “Muitos proprietários nasceram na fazenda e têm conhecimento da prática: não sabem da teoria. Mas é preciso saber onde está a linha hidráulica e qual é a necessidade de água”, observa Muradas. Se o projeto de circulação de área é malfeito, por exemplo, o que poderia ser executado em três quilômetros de terreno pode gastar cinco, segundo ele.

O plano diretor de uma fazenda gasta de 70 a 80 plantas de construção, afirma Muradas. A equipe dele é formada por agrônomos, veterinários, arquitetos, engenheiros civis, zootecnistas, hipólogos, topógrafos, paisagistas, decoradores e desenhistas. “A agropecuária moderna exige o trabalho com projetos para agregar valor ao que está sendo construído”, diz o argentino. Um bom projeto, na sua avaliação, multiplica o valor da propriedade e é uma das boas formas de acumular capital. “Já um puxadinho para cá e outro para lá muitas vezes gasta dinheiro e não resolve o problema”, afirma.

Bovinos sem estresse
Em fazendas voltadas para a criação de animais de elite, a arquitetura dos ambientes deve ser pensada para garantir conforto aos animais. Galpões devem ficar perto das casas dos funcionários

Na Fazenda Guará, em Inhaúma, a 78 quilômetros de Belo Horizonte, o plano diretor foi elaborado pelo argentino Ricardo Adrián Muradas. A propriedade, de gado de elite, chama a atenção pela boa estrutura e higiene com os animais. O dono da fazenda, o advogado José Murilo Procópio, afirma que o curral deve ser coberto para não causar estresse nos bovinos. “Os animais precisam ser preservados para que não se machuquem. E a limpeza é preponderante”, afirma Procópio.

O curral conta com 18 baias e fica localizado no centro dos piquetes. “É preciso que esteja em área sem risco para a circulação das pessoas e ao mesmo tempo de fácil acesso dos animais”, observa Procópio. As baias medem 15 metros quadrados e cada uma abriga dois animais.

Na Fazenda Guará, as 18 baias ficam no centro dos piquetes: sem riscos para a circulação e fácil acesso (Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Na Fazenda Guará, as 18 baias ficam no centro dos piquetes: sem riscos para a circulação e fácil acesso

Como a criação da fazenda é de reprodutores que vão para a exposição, o curral deve oferecer proteção contra raios e ser arejado. “É importante ainda que seja iluminado durante a noite, para ajudar na engorda”, diz Procópio.

A fazenda conta ainda com galpão de máquinas e outro de feno e ração, de 500m2. Paulo Lage destaca o fato de a necessidade do galpão ser proporcional às necessidades da fazenda. “Se possível, deve ficar em lugar baixo, para que possa ser lavado e escorrer a água”, diz.

Rivaldo Costa afirma que o curral precisa ser dimensionado de acordo com a atividade que vai ser feita na fazenda: criação de gado de leite, corte ou para equinos. “Cada uma exige um tipo de curral”, diz. O espaço bem estruturado, com altura em torno de 1,8 metro, no entanto, pode servir para várias criações. “O gado de corte geralmente é mais bravo, precisa de altura maior. Já o de leite não precisa de dimensão tão grande, mas tem que ter outras áreas, como sala de espera e ordenha”, afirma.

O curral para o gado de corte, na avaliação de Costa, deve ter 1,9m2 de área por vaca com bezerro, 1,60m2 por bovino adulto solteiro e 1,30m2 por animal jovem. “O local deve ser ainda bem drenado e com acesso à água” diz. No caso dos galpões, ele afirma que precisam estar em fácil acesso às estradas e estar em área próxima às residências dos funcionários, para ajudar na segurança.

Geórgea Choucair – Estado de Minas
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